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Infância e Adolescência • 21.09.21

Ser mãe e profissional da educação: uma luta contra nossas crenças limitantes

Quando pensamos no processo de alfabetização, imediatamente relacionamos esse processo ao ato de ler e escrever de forma correta. É importante entendermos que a alfabetização vai muito além dessa definição. Hoje, quero focar no meu lado mãe e compartilhar um pouco da experiência que vivi com meu filho Gabriel. 

Talvez, muitos pais ou mães compartilhem do meu sentimento….

Em 2020, sem ao menos recebermos aviso prévio, a pandemia chegou em nossas vidas. De início pensávamos, que seriam apenas 15 dias e que não iria passar disso, pois bem, passou e muito. E nós, pais, tivemos que mediar o processo de construção de conhecimentos de nossos filhos. Mesmo sendo mãe e educadora, não pensem que tirei esse desafio de letra, pois mesmo com toda a bagagem sólida de conhecimento que construí na minha carreira profissional, em muitos momentos me vi refém de minhas crenças limitantes, baseadas em minha trajetória escolar.

Emília Ferreiro, educadora que defende as hipóteses de escrita pelas quais passa uma criança antes de se apropriar de uma escrita convencional (sem erros), diz que a criança não pede permissão para aprender. O meu filho, Gabriel, me faz lembrar dessa frase todos os dias. 

Na pandemia, o Gabriel estava no grupo 5, do Colégio Senhora de Fátima, e da noite pro dia começou a usar a escrita em todas as situações de sua rotina. Como educadora, que defende a escrita enquanto sua função social, ou seja, o uso para comunicar-se com o mundo e registrar seus conhecimentos ou ir em busca deles, o orgulho foi tremendo, até que ele começou a solicitar a minha opinião sobre o que registrava. Aí começaram os meus conflitos entre o conhecimento e a prática, a qual estava enraizada em crenças limitantes. 

TENTATIVA NÚMERO 1

Nas primeiras vezes que ele me perguntou se estava certo, minha resposta instantânea foi aquela de todas nós, professoras, que queremos que escrevam conforme as suas hipóteses: 

  • Filho, escreve do seu jeito!

Mas, a tentativa número um não foi suficiente para ele. Quando eu falava isso, ele respondia:

  • Eu não sei escrever mesmo. (E então, amassava o papel)

 

TENTATIVA NÚMERO 2

Percebi que aquela resposta estava desmotivando meu filho a manter sua hipótese de escrita, ou seja, ele estava deixando de mostrar as relações que já havia construído com os sons das palavras e sua representação escrita. Então, tentei uma nova abordagem. Vale lembrar que na primeira tentativa, possivelmente o meu olhar demonstrou que não estava certo, por mais que a minha fala dissesse outra coisa. 

Ele passou, então, a me perguntar como escreviam as palavras, pois acreditava que não sabia escrever:

  • Mãe, como escreve pular corda?
  • Filho, você que tem que escrever, que outras palavras com esse som você conhece? (e repetia o som de cada parte da palavra)

Vocês já imaginam que essa tentativa também não funcionou. A resposta dele era:

  • A mãe, você não quer me ajudar! (E parava de escrever)

Esse foi o momento em que eu entendi que não tinha repertório para aquela situação e que nenhuma teoria me auxiliaria a saber como ajudar meu filho. Então fui conversar com outras educadoras, que já haviam passado por esse desafio como mãe. Conversei com a Miruna Kayano (especialista em alfabetização), a qual sempre nos seus cursos compartilhava um pouco do seu papel de mãe. E entendi o que estava por trás de minhas tentativas sem êxito:

Não conseguia validar a escrita do meu filho! 

Em todos os cursos de alfabetização que fiz, essa palavra “validar” era sempre presente, mas só fui compreender seu significado e importância na experiência que vivi com o Gabriel. Segundo a Miruna e todos os estudiosos que defendem a escrita da criança enquanto processo permeado por diferentes hipóteses, ou seja, caminho que a criança precisa percorrer até se tornar alfabética, a criança tem que se sentir segura para mostrar o que já sabe. E como nós, seres humanos, nos sentimos seguros? Quando alguém nos diz que o que fazemos está certo. 

É claro, que na vida não será sempre assim e nem mesmo na trajetória escolar de nossos filhos, pois o erro é um fator determinante para a construção de novas aprendizagens. Mas, é importante sabermos que uma criança até os 7 anos ainda não é capaz de separar o erro dela mesma, portanto, quando erra entende que ela é errada.

É difícil para um pai ou uma mãe que estudou numa escola tradicional aceitar a validação de algo escrito errado, pois imediatamente pensamos:

“Meu filho vai aprender a escrever errado!”

“Vou mentir pra ele.”

Não, você não está mentindo, pois o que ele escreve está certo dentro das relações que ele já é capaz de fazer com a escrita. E, não acaba por aí, outros fatores são importantes neste processo e é falando deles que termino a minha história.

NOSSOS FILHOS PRECISAM TER CONTATO COM UM AMBIENTE ALFABETIZADOR DIARIAMENTE! 

Na escola, os professores colocam nossos filhos em contato diário com esse ambiente através das situações que trazem a escrita com significado, como nos momentos de resolver os desafios do projeto, de dar nomes às suas descobertas, quando constroem os mapas conceituais, ao se comunicar com alguém ou realizar uma pesquisa. Esse ambiente também se faz presente na aproximação com autores de uma escrita potente, onde, nas rodas de leitura, navegam no mundo da imaginação e constroem novos vocabulários.

Sempre tomei o cuidado de não levar a escola pra casa, mas na pandemia, meu filho não tinha onde consultar para escrever, pois esse ambiente não serve apenas para a criança ter contato, mas para usar como consulta no momento da escrita. Fizemos então, em casa, a lista dos nomes dos integrantes de nossa família, a lista dos brinquedos e brincadeiras favoritas, colocamos etiquetas com os nomes dos itens que faziam parte de seu quarto, os quais possibilitaram que ele fizesse relações entre os sons e a sua escrita. Num primeiro momento as consultava pra tudo que fosse escrever e quando vi, já não precisava mais consultar.

 

Autora: Tatiana Fernandes de Paula de Azevedo,
apaixonada pela educação e Coordenadora do Colégio Senhora de Fátima, Fundamental 1

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